ToMás Pereira

O jesuíta Tomás Pereira, nasceu em São Martinho do Vale, perto de Famalicão, em 1 de Novembro de 1645. Em 25 de Setembro de 1663 entrou para a Companhia de Jesus e em 15 de Abril de 1666 embarcou para a Índia, continuando os seus estudos em Goa. Chegou a Macau 1672, tendo seguido mais tarde para a China Continental onde veio a falecer em 1708. Foi indubitavelmente o “Patres Pekinenses” mais próximo do Imperador Kangxi, de quem foi professor pessoal, intérprete e conselheiro. Foi certamente esta influência que conduziu à publicação, em 1692, do “Édito da Tolerância”, marco incontornável para a difusão e a prática do Cristianismo na China, numa demonstração de invulgar abertura ao Ocidente. Teve funções no Observatório Astronómico Imperial chegando a Co-Coordenador do Calendário, uma posição de categoria equivalente ao alto Mandarinato. Na tarefa de missionação que lhe tinha sido confiada, atingiu os mais altos cargos, incluindo Reitor do Colégio Jesuíta, Visitador da Vice-Província da China, e Bispo-coadjutor (designado) de Pequim.

Tomás Pereira foi também o responsável pela introdução da música ocidental na China. As suas contribuições musicais incluem, por exemplo, a construção de um imponente órgão na Igreja de Nantang e a escrita do “Lulu Zhengyi Xubian”, obra em que traduz para a língua chinesa o sistema ocidental de notas musicais.  

No ramo da diplomacia, o seu nome estará para sempre associado à negociação do Tratado de Nerchinsk, em 1689, com o Estado russo, o mais importe marco da história das relações internacionais do império Qing durante o século XVII. Tomás Pereira foi, enfim, o missionário que ocupou um dos mais altos cargos na hierarquia da Missão dos Jesuítas na China: reitor da Universidade de Pequim, VisitadorVice-Provincial e Bispo Auxiliar-Designado de Pequim.

 

 

O destino das estelas funerárias do cemitério jesuíta de Zhalan espelha, dum modo fascinante, as vicissitudes dos monumentos europeus durante a turbulenta história da China. Vandalizadas durante a Revolta dos Boxers, regressando posteriormente ao local, para serem novamente dispersas com o advento da República na China; e posteriormente com a decisão de localizar uma escola de quadros do Partido na área, acabando por seremparcialmente protegidas por Chu En Lai, e sendo evitada in extremis a destruição total durante a Revolução Cultural, tendo o Cemitério sido finalmente reconhecido como Tesouro do Património Nacional em 2006. A lápide de Tomás Pereira foi uma das que se perderam por completo, embora existisse um decalque (a partir do original, na altura da inventariação dos estragos dos Boxers) que permitia a feitura duma réplica nas dimensões originais.

Com o apoio financeiro do Instituto Camões e da Fundação Gulbenkian foi possível custear o trabalho de cortar e esculpir a réplica da lápide tumular de Tomás Pereira. Dos locais onde teria sido possível instalar a estela, a opção pelos jardins da Embaixada de Portugal veio a revelar-se a mais exequível.

Constitui uma forma perene de recordar aos visitantes da Embaixada a importância histórica deste Português nas relações culturais e científicas, pioneiras, entre a China e a Europa.

A importância da disciplina ‘História das Ciências’ para sublinhar o contributo dos Jesuítas da Missão em Pequim para o intercâmbio científico e cultural entre o Ocidente e a China foi assinalada desde o final dos anos 90. O grande entusiasta das potencialidades dessa dimensão foi o Prof. Mariano Gago que enquanto Ministro responsável pela área da Ciência promoveu a criação do Centro Sino-Português de História das Ciências, inaugurado em 1999, e foi depois, quando novamente Ministro, quem dinamizou os estudos sobre Tomás Pereira, em 2005, para se assinalar condignamente o tricentenário da morte em 2008. A posterior publicação da obra de Tomás Pereira (um trabalho de pesquisa historiográfica notável, coordenado pelo Prof. Luis Filipe Barreto) e os seminários científicos e exposições que se realizaram entretanto contribuíram para retirar dum esquecimento injusto esta grande figura da nossa relação com a Ásia. Todos os que tomaram conhecimento da importância de Tomás Pereira e do desaparecimento da sua lápide tumular acalentaram o projecto de produzir uma réplica, desde que Mariano Gago indagou, em 2005,  junto do director da Comissão da Ciência e Tecnologia do Conselho de Estado, Song Jian (posteriormente Vice Presidente CCPPC) pelo paradeiro da estela perdida.  Onze anos depois a Lápide ficou concluída.