Mensagem do Embaixador

Um Embaixador de Portugal na China...

Não pode deixar de começar por mencionar o longo relacionamento com esta terra e as suas gentes que data de há 500 anos. Muita da nossa atenção quando temos de lidar com os acontecimentos históricos ligados aos portugueses na China tende a estar focada em Macau mas não deveremos esquecer outros locais, onde a nossa presença ficou registada, entre os quais Pequim justamente.

Dos portugueses corajosos, que foram dos primeiros a visitar a região, meio milénio atrás, deixem-me falar de um deles, soldado e mercador e um dos “pais” dos escritores de livros de viagens, Fernão Mendes Pinto. Nas suas memórias de viagens na Ásia, de 1537 ao 1558, na sua obra “Peregrinação”, são feitas várias referências à China. O seu livro, de que vamos comemorar o quarto centenário da sua publicação em 2014, foi um verdadeiro “best seller” no Século XVII. Foi traduzido nas principais línguas europeias e naquele tempo vendeu aliás mais cópias do que um outro famoso êxito de vendas, envolvendo um cavaleiro e o seu escudeiro (talvez porque, tal como agora, uma obra “baseada numa história verídica” vende mais que a ficção). Mendes Pinto foi dos primeiros escritores europeus a mencionar muitas destas terras onde o Sudeste Asiático comerciava com o Norte e o Nordeste da Ásia. Deu o seu contributo para um entendimento global pioneiro do comércio marítimo ao longo destas costas.

Estas sólidas bases históricas e culturais do nosso relacionamento são algo de que nos devemos recordar, mas que de forma alguma nos deverão afastar da nossa missão principal aqui na Embaixada, de lidar com os contactos entre os dois povos, as duas sociedades civis, os seus governantes e com as pessoas ligadas aos negócios e à vida concreta, incluindo nesta a actividade económica, o investimento, as trocas comerciais, a cooperação científica e tecnológica e a criação cultural.

Portugal tem uma localização estratégica, o que por si constitui uma vantagem (é o país europeu mais próximo dos EUA, a três zonas horárias tanto do Brasil como da Rússia), e dispõe de excelente logística e infra-estruturas de comunicações. Temos produtos e serviços de grande qualidade e a preços muito competitivos e temos uma mão-de-obra altamente qualificada e talentosa (nomeadamente devido a uma educação de alto nível, a qual inclui parcerias com instituições de renome mundial nos EUA) e demonstramos uma aptidão notável para a inovação. Poderão alguns pensar que sendo um país com apenas 10 milhões de habitantes constituímos porventura um mercado demasiado pequeno para merecer a atenção de alguns de vós, mas de facto, pensando com uma mente mais aberta e com mais visão, poderão lembrar-se que Portugal é uma porta de entrada para o Brasil e para outros países de língua oficial portuguesa tais como Angola e Moçambique, não esquecendo bem entendido as vantagens evidentes de estar situado no centro da União Europeia. (A Península Ibérica tem 51 milhões de habitantes, a Europa 494 milhões e os países de expressão portuguesa 220 milhões).

Para os que não sabem, as nossas principais exportações consistem em maquinaria e ferramentas, veículos e outro material de transporte, metais de base, produtos à base de óleo, plásticos e borracha, vestuário, pasta de papel e papel. Os nossos sectores predominantes, com grande potencial de crescimento e desenvolvimento são a indústria agro-alimentar, biotecnologia, energias renováveis, equipamento industrial, produtos de ‘lifestyle’ (têxteis, artigos domésticos, mobília, vidro, cerâmicas e cutelaria) e moda, vinho, papel e pasta de papel, aeronáutica, sector automóvel, indústria de moldes plásticos, ICT e cortiça.

Temos uma indústria de turismo muito desenvolvida, capaz de oferecer um leque de serviços muito diversificado. O mais importante esforço que temos pela frente é convencer os nossos amigos chineses que, perante todas as coisas boas que há em Portugal, deveriam visitar o nosso país pelo menos uma vez. Depois dessa primeira visita, é voz corrente, as deslocações subsequentes acabam quase sempre por ter lugar. A gastronomia e as paisagens são extremamente diversificadas – e agradáveis – para um país com menos de 100 000 quilómetros quadrados. O golfe é simplesmente fantástico. E acima de tudo somos hospitaleiros com todas as pessoas, de qualquer parte do mundo .

Nos últimos anos deu-se um significativo desenvolvimento das nossas relações económicas, incluindo uma muito relevante participação de empresas chinesas tão importantes como a “China Three Gorges” ou a “China State Grid” no processo de privatizações em curso, traduzindo em números concretos uma excelente relação política, evidenciada por uma notável dinâmica de visitas recíprocas de alto nível, e pelo qualificativo de “Parceria Estratégica” que desde 2005 define o nosso relacionamento bilateral.

Assim sendo, ao focarmo-nos nos actuais desafios, ancorados numa base sólida da nossa memória comum, de harmonioso contacto, Portugal e a China têm à sua frente um futuro auspicioso.

Embaixador Jorge Torres-Pereira