Embaixador de Portugal na China concede entrevista ao Diário do Povo

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José Augusto Duarte, o novo embaixador de Portugal na China, recém-chegado a Beijing, concedeu ao Diário do Povo Online uma entrevista onde aborda, entre vários temas, o atual estado das relações bilaterais e as motivações profissionais que irão pautar a sua agenda enquanto representante da missão diplomática de Portugal em solo chinês.

Aludindo à atual importância estratégica da China para Portugal, bem como ao “excelente estado de relações entre Portugal e a China”, dos pontos de vista social, económico e político, o diplomata afirma que “é difícil imaginar que algum embaixador de Portugal esteja com mais entusiasmo no seu posto do que o entusiasmo com que eu chego a este posto, aqui, em Pequim”.

“Se o bom entendimento político é a coluna vertebral da relação entre os dois estados, o relacionamento económico traz a musculatura a essa coluna vertebral e dá-lhe a robustez que é necessária nessa mesma relação”, afirmou, acrescentando que, perante tal cenário, “temos base para ir mais além, para sermos mais ambiciosos”.

Com efeito, no domínio do comércio, o embaixador considera que Portugal pode “exportar muito mais para a China”, da mesma forma que “também tem capacidade para importar mais produtos de qualidade da China”.

“Acredito claramente que Portugal tem produtos de qualidade mundial e que, tenho a certeza, que um consumidor chinês, se não os compra, é porque não os encontra no mercado, ou porque não tem conhecimento da qualidade dos mesmos”, afiançou, mencionando o facto de que a “atual dinâmica económica fascinante” da China é uma realidade que “provavelmente no ocidente nem todos ainda se aperceberam”.

Os setores das novas tecnologias e da robótica foram citados como exemplos de produtos chineses passíveis de obterem uma maior proeminência no mercado português e, por sua vez, os vinhos, o calçado, ourivesaria e joalharia, são, no entendimento do diplomata, alguns dos produtos que Portugal poderá incrementar as suas exportações para a China.

No que concerne ao âmbito político, José Augusto Duarte relembrou o “apoio vital” da China para o sucesso da candidatura de António Guterres ao cargo de secretário-geral da ONU, bem como o facto de Portugal ver “com muito respeito aquilo que tem sido a posição da China na política internacional, nomeadamente nas questões ambientais, e nas questões do livre comércio”.

Instado a comentar os avanços consumados pela China nos últimos 40 anos, efeméride que assinala o início da Política de Reforma e Abertura, o diplomata refere que o percurso efetuado pelo país é repleto de “constatações” factuais, as quais se prendem com as mudanças perentórias ocorridas ao longo do período referido.

Tais constatações, salienta, “precisam de ponderação e precisam de reflexão de como é que se chega a este nível de desenvolvimento, prosperidade e inserção”, de modo a “tirar as devidas ilações em países onde é necessária essa mesma progressão”.

Na esfera cultural, a senda de atividades de promoção da cultura e da língua apoiadas pela embaixada deverá continuar neste mandato, bem como “evocações importantes daquilo que é a história antiquíssima da relação entre Portugal e a China”.

“O interesse por uma língua e pela cultura também começa por coisas lúdicas”, asseverou, descortinando a intenção de trazer mais músicos portugueses para interagirem com alunos chineses de língua portuguesa e com o público geral, algo que, enfatiza, constitui “uma forma de cooperação, interesse e motivação” importante para fomentar a aproximação entre ambos os povos.

O mesmo se aplica em sentido inverso, defende, garantindo que irá mover diligências no sentido de, “com patrocínios privados ou com apoios públicos, tentar aproximar mais os jovens chineses dos meus compatriotas portugueses”.

Restam ainda planos para uma maior troca de visitas de altos dignatários chineses a Portugal e em sentido inverso, bem como o reforço das relações de proximidade com a comunidade chinesa residente em Portugal.

Respondendo a algumas questões de cariz pessoal, nomeadamente os locais que gostaria de visitar na China, o entrevistado, que entretanto já começou a dar os primeiros passos na aprendizagem do mandarim, afirmou em tom bem-disposto: “O problema é que o embaixador, em princípio, só está quatro anos no posto, e a China é imensa!”. Xi’an, Shanghai, Zhejiang, Guangzhou e Harbin, foram alguns dos destinos enumerados.

Por último, desafiamos o embaixador a revelar uma meta pessoal durante a passagem pela China. A resposta? Ambiciosa. “Vou tentar ler todos os escritores chineses, da atualidade, pelo menos, porque com 4000 anos de história, ainda por cima com escrita, é muito difícil, para não dizer impossível”. 

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